Manifesto de um Anarquista do Interior Paranaense

Janeiro de 2023

“Porque nenhuma fronteira do mundo pode barrar a Revolução Social”


 Quantos de nós anarquistas (ou sindicalistas revolucionários; ou anarcossindicalistas; ou socialistas libertárias; ou autônomos; ou antifascistas; ou…) temos noção do quão capilarizado é o anarquismo (;ou…) no Brasil?


 Quantos de nós tem noção de quantas pessoas no interior do Brasil apenas não se organizam porque estão à espera da concretização dos discursos irreais que envenenam o espírito e enchem com a vã esperança de que serão salvas da miséria, da perseguição e da fome, pela Grande Manifestação em tal ou qual Avenida com mais de 1 milhão de pessoas?

 Quantos de nós apenas não se organizam porque não há meios de se organizar em uma cidade com 10, 20, 100 mil habitantes? Porque, apesar de inúmeras tentativas para ao menos uma faísca ser gerada, sempre impera a falha e um balde de algo fria se impõe? O que fazemos de errado se utilizamos as mesmas táticas e estratégias dos companheiros e companheiras das capitais do Brasil?

Quando vos digo Brasil é necessário que compreendamos o território dominado pelo Estado Brasileiro em sua totalidade. O que conhecemos, de fato, da nossa capilaridade, quando longe dos centros urbanos, das metrópoles, das capitais? O que queremos dizer quando falamos sobre uma organização revolucionária do/no Brasil se não tratamos esse território em sua verdadeira face: interiorana, comunitária, rural, indígena, quilombola e campesina.

É fato que nós sabemos sobre as atividades culturais, ações diretas, monções de solidariedade e repúdio, feiras, manifestações, ocupações que ocorrem nos centros urbanos. Midiatizadas em redes sociais, em blogs e listagens de e-mail, temos (quase) total acesso as informações que percorrem os grandes centros.

É fato, também, que muitas dessas atividades ocorrem nas pequenas e médias cidades: reuniões, atividades culturais, manifestações, agrupamentos, fomento a organização, trabalho de base e tentativas frustradas de comunicação e divulgação.

Quando vos digo sobre essas tentativas frustradas, é necessário compreender que estamos intoxicados de informações que não fazem jus as realidades das pequenas e médias cidades e não há o menor interesse nos centros urbanos no que temos para dizer; explicam, pois, se seguirmos passo a passo a forma como se organizam teremos o mesmo sucesso; pois, se nos concentrarmos em divulgar suas ações, um dia, quem sabe, um companheiro ou companheira pode vir as nossas pequenas e médias cidades fazer uma fala sobre como é a luta na capital.

Pequenas e médias cidades que, além de possuírem dinâmicas sociais e econômicas diferentes das capitais, ainda mantém o poder, diretamente e intrinsecamente, conectado ao coronelismo, à força da Igreja Católica, dos conservadores, ruralistas, neopentecostais, latifundiários e saudosistas da Ditadura Militar.

 Problemáticas que interferem diariamente em milhares de municípios do país e pouco fazem parte das discussões, debates, análises e notícias que circundam o meio revolucionário urbano. E quando há, é sempre parte de uma nota de roda pé, um mirabolante ensinamento, um faça você mesmo, um tapinhas nas costas, uma fala genérica. Pessoas que ficam alheias ao internacionalismo tão pregado nas monções de solidariedade aos revolucionários e revolucionárias do mundo.

Pessoas do interior paulista, fluminense, gaúcho, paranaense, pernambucano, paraense, piauiense, goiano, mato-grossense, mineiro… Pessoas que constroem trabalhos belíssimos, que modificam a cultura, a luta, a dinâmica e o imaginário social desses locais. Locais que insistem em perseguir, punir, esquecer e restringir a liberdade de companheiros e companheiras sem nos darmos conta do que se passa lá.

Que se passa lá, melhor dizendo: do que se passa aqui. É importante, neste momento, destacar: porque nós anarquistas (;ou…) de pequenas e médias cidades sabemos mais sobre o que acontece nos centros urbanos e não sabemos nada (ou quase nada) do que ocorre na cidade vizinha, com o companheiro do sítio, com a companheira da usina?

O que nos falta?
Estamos intoxicados de informações que não contemplam a nossa realidade.

Intoxicados pela imperativa comunicação das médias e grandes organizações e pessoas influentes que ao se estabelecerem nas redes sociais, e-mails, listagens, blogs impossibilitam (talvez não propositalmente) a divulgação de atividades e engolem a troca de informações entre as pequenas e médias cidades: dando destaque apenas as atividades de outras capitais e regiões do mundo, nos isolam e nos fazem acreditar que estamos sós ou que somos apenas forças desencadeadas pelo urbano, pautados pelas metrópoles, servidos apenas como números; menos relevantes.

Com isso, esquecemos que elaboramos atividades culturais, que propomos reuniões, que construímos organizações, que lutamos, manifestamos e ocupamos os espaços; a nossa maneira, do nosso jeito, como podemos, da forma com que conseguimos. Esquecemos que nossos companheiros e companheiras participam de campanhas internacionalistas, que nos solidarizamos.

Se esquecidos ou não lembrados,.
Esquecemos que se o campo não luta e não produz, o centro urbano não se liberta e não come.

Precisamos de um antídoto.

Precisamos nos desintoxicar, passar a compreender a nossa realidade e divulgá-la entre nós. Nos solidarizarmos entre nós anarquistas (;ou…) de pequenas e médias cidades. Sermos solidários e menos orientados pela conjuntura dos centros urbanos. Construir agendas que abracem os nossos anseios, as nossas dificuldades, os nossos planos.
Quem decidirá, senão nós, trabalhadores e trabalhadoras das pequenas e médias cidades, do interior, do quilombo, do campo, do território, sobre nossas próprias vidas?

Temos que compreender que a luta que desenvolvemos no interior paranaense é muito mais semelhante a que se desenvolve no interior baiano, alagoano, goiano, mineiro, capixaba, do que com a luta que companheiros e companheiras empregam na capital paulista, fluminense, maranhense, mato-grossense.

Que criemos redes de comunicação interiorana! Que criemos redes de solidariedade interiorana! Que divulguemos os belíssimos trabalhos que desenvolvemos no interior! Que nos comuniquemos e não nos esqueçamos de nós mesmos! Que olhemos para a cidade, o vilarejo, o bairro, a vila rural, o acampamento, a ocupação, o quilombo, o território, o distrito ao lado daquela em que estamos!

Que saibamos que nossa capilaridade vai além da capital!
Que existimos!

Que nossos companheiros, companheiras e companheires dos centros urbanos, capitais e metrópoles compreendam e utilizem fraternalmente seus dispositivos e forças para a solidariedade sincera às nossas lutas, nossas organizações, nossas vidas.

Que a Capital não se erga sobre o Interior!
Que o internacionalismo nos atinja!

Precisamos para 2023 e para todo o sempre, rumo a Revolução Social, saúde, anarquia e fraternidade entre todas as pessoas que vivenciam dia após dia a luta nas pequenas e médias cidades, nos campos, nos quilombos e nas reservas.

"Porque nenhuma fronteira do mundo pode barrar a Revolução Social"

Pedro Rachid - Companheiro R.
Interior Paranaense do território ocupado pelo Estado Brasileiro
Janeiro de 2023

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